A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima em 8,8 gigawatts (GW) o potencial de resposta da demanda de energia no Brasil, considerando principalmente a participação de consumidores industriais e unidades de cogeração. O dado consta em nota técnica publicada em 18 de setembro de 2026, em um momento de discussão sobre o aprimoramento dos mecanismos de flexibilidade do setor elétrico.
A resposta da demanda permite que consumidores reduzam ou desloquem voluntariamente o uso de eletricidade quando o sistema enfrenta períodos de maior necessidade. Esse ajuste pode ocorrer a partir de solicitações do operador ou de sinais econômicos, criando uma alternativa ao acionamento de usinas e à contratação de novos recursos exclusivamente para atender necessidades de potência.
Potencial varia de 5,9 GW a 13,1 GW
De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética, o resultado de 8,8 GW corresponde ao cenário de referência analisado no estudo. A projeção considera diferentes níveis de adesão e capacidade de resposta dos consumidores, com uma faixa que vai de 5,9 GW no cenário conservador a 13,1 GW no cenário otimista.
Segundo a EPE, o intervalo estimado equivaleria a uma parcela entre 5,6% e 12,4% do recorde de demanda instantânea do Sistema Interligado Nacional (SIN). A comparação ajuda a dimensionar o possível impacto do mecanismo sobre a operação do sistema, embora o potencial técnico não represente, automaticamente, capacidade já contratada ou disponível em tempo integral.
No cenário central, cerca de 4,1 GW estão concentrados em segmentos eletrointensivos. Entre os setores considerados aparecem siderurgia, alumínio, cimento, papel e celulose, ferroligas e data centers. Essas atividades possuem processos de consumo relevantes e, em determinadas condições, podem alterar horários ou reduzir temporariamente a utilização de eletricidade.
O restante do potencial calculado está associado a unidades de cogeração que utilizam diferentes insumos, como bagaço de cana, resíduos de madeira, biogás, gás de processo e outros combustíveis. A cogeração produz eletricidade e calor de maneira combinada e pode oferecer uma fonte adicional de flexibilidade para o atendimento das necessidades do sistema.
Contratação será decisiva para transformar potencial em recurso
A nota técnica foi elaborada após o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) determinar a continuidade e o aprimoramento dos mecanismos de resposta da demanda. A deliberação ocorreu na 323ª reunião do comitê, realizada em 2 de setembro de 2026, com previsão de mudanças nos modelos aplicáveis a partir de 2027.
A principal conclusão do estudo é que o Brasil dispõe de potencial relevante, mas ainda precisa aperfeiçoar as formas de contratação para ampliar a participação desse recurso no mercado. Na prática, será necessário definir como a capacidade de redução ou deslocamento do consumo será remunerada, convocada e integrada aos processos de operação do SIN.
Esse desenho também deverá considerar as características de cada participante. Uma indústria pode ter limites operacionais diferentes dos de um data center, enquanto uma unidade de cogeração depende do combustível disponível, da demanda térmica e das condições de funcionamento de seus equipamentos. Por isso, a transformação do potencial estimado em resposta efetiva depende de regras capazes de acomodar diferentes perfis.
Flexibilidade ganha importância na transição energética
A resposta da demanda integra um conjunto mais amplo de soluções para aumentar a flexibilidade do sistema elétrico brasileiro. À medida que fontes renováveis variáveis, como a solar e a eólica, ampliam sua presença, torna-se mais importante ajustar a oferta e o consumo em diferentes momentos do dia e em situações de mudança nas condições de geração.
Em outra publicação institucional, a EPE também trata do armazenamento hidráulico como alternativa associada à flexibilidade do Sistema Interligado Nacional. Embora sejam mecanismos distintos, o armazenamento e a resposta da demanda fazem parte do debate sobre recursos capazes de melhorar a capacidade de adaptação do sistema.
Para consumidores industriais e unidades de cogeração, a participação poderá representar uma nova oportunidade de atuação no mercado de energia. Para o setor elétrico, o mecanismo pode ampliar as opções de atendimento da potência e reduzir a dependência de soluções baseadas apenas na construção ou no acionamento de novas usinas.
O volume de até 8,8 GW, portanto, deve ser interpretado como uma estimativa de potencial a ser desenvolvido. A efetiva contribuição da resposta da demanda dependerá das regras previstas para 2027, do interesse dos consumidores e da capacidade de coordenação entre participantes, agentes do mercado e operador do sistema.