Por muito tempo, o crédito rural no Brasil dependeu quase exclusivamente de bancos e de recursos oficiais, e Wander Aguilera Almeida, empresário da intermediação de compra e venda de grãos, observa que essa realidade mudou de forma significativa nos últimos anos. Títulos ligados à produção agrícola passaram a ser negociados no mercado financeiro, conectando o campo a investidores de todo o país.
Essa transformação é impulsionada por dois instrumentos-chave. A Cédula de Produto Rural (CPR), instituída em 1994 e modernizada pela Lei do Agro (2020), confere ao produtor a possibilidade de obter recursos financeiros comprometendo parte da produção futura. Os Fiagros, fundos de investimento criados em 2021, captam recursos de investidores e os direcionam para operações do setor.
A tendência adquire importância em um ciclo de taxas de juros elevadas e de recursos oficiais escassos para atender à demanda integral. Neste artigo, você compreenderá o funcionamento desses instrumentos, os motivos de sua expansão e os cuidados necessários para produzi-los adequadamente.
Por que o financiamento do agro mudou de endereço?
O Plano Safra, reconhecido como um marco na concessão de crédito rural, enfrenta desafios na capacidade de atender às demandas totais do setor. Estimativas do próprio governo indicam que a demanda potencial de custeio da safra 2026/27 supera em muito o volume das linhas oficiais, o que resulta no direcionamento de parte relevante do financiamento para fontes privadas.
Revendas, cooperativas e tradings sempre ocuparam parte desse espaço, muitas vezes por meio de operações vinculadas à entrega de grãos. A novidade reside na entrada do mercado de capitais, que transformou recebíveis do agronegócio em ativos negociáveis, capazes de atrair investidores interessados em diversificar suas aplicações.
Esse movimento estabelece uma conexão entre o produtor e uma base de recursos mais extensa. Ao analisar tal mudança, Wander Aguilera Almeida destaca que a ligação entre crédito e produção torna a comercialização ainda mais próxima do financiamento, já que muitos desses títulos estão atrelados a volumes de grãos que precisarão ser entregues ou vendidos.
Como funcionam os principais instrumentos?
A estrutura de financiamento via mercado de capitais combina diferentes títulos e veículos, cada um com características próprias:
- CPR física: o produtor recebe recursos ou insumos antecipadamente e se compromete a entregar uma quantidade definida de grãos em data futura. É amplamente usada em operações com tradings, revendas e cooperativas.
- CPR financeira: em vez da entrega do produto, a liquidação ocorre em dinheiro, com valor que pode ser referenciado no preço do grão. A modalidade facilita a circulação do título no mercado financeiro.
- Fiagros: fundos que reúnem recursos de investidores para aplicar em títulos do agronegócio, imóveis rurais ou participações em empresas do setor. Negociados em bolsa, ampliaram o acesso de pessoas físicas ao financiamento do campo.
- Títulos de securitização: certificados como o CRA agrupam recebíveis do agronegócio, entre eles CPRs, e os transformam em papéis vendidos a investidores, levando recursos de grande escala para empresas e produtores.

A Lei do Agro também estabeleceu o registro das CPRs em entidades autorizadas, proporcionando maior transparência e segurança jurídica às operações. Wander Aguilera Almeida, responsável pelo acompanhamento das safras e da evolução das cotações, indica que a formalização contribuiu para aumentar a confiança dos investidores em ativos relacionados à produção agrícola.
Os cuidados que o produtor precisa ter
Acessar recursos pelo mercado de capitais exige organização. Investidores e estruturadores avaliam o histórico de produção, a situação financeira, as garantias e a capacidade de pagamento. Propriedades com gestão profissional e informações bem documentadas são favorecidas.
O principal risco está no compromisso assumido. Uma quebra de safra, causada por condições climáticas desfavoráveis, pode comprometer o cumprimento do contrato. Segundo Wander Aguilera Almeida, é imprescindível dimensionar o volume comprometido de acordo com a produção realista, e não com a expectativa mais otimista, em safras de clima incerto, como a 2026/27.
Além disso, é imprescindível realizar uma análise comparativa dos custos envolvidos. As taxas, garantias exigidas, prazos e encargos apresentam variação considerável entre as operações, e nem sempre o recurso privado se mostra mais vantajoso do que as linhas oficiais. A avaliação do custo-benefício de cada alternativa é essencial para evitar que o financiamento comprometa a margem da safra.
Um elo cada vez mais forte entre campo e investidor
Por fim, a expansão das CPRs e dos Fiagros indica que o financiamento do agronegócio não depende exclusivamente de bancos e do governo. O mercado de capitais passou a competir por sua participação como fonte de recursos, ampliando as opções do produtor e conectando a produção agrícola a investidores de diferentes perfis. O empresário do agronegócio Wander Aguilera Almeida nota que essa aproximação tende a se aprofundar à medida que o setor se profissionaliza.
O avanço, contudo, transfere ao produtor a responsabilidade de conhecer as regras dos títulos, os riscos de entrega e o custo real de cada operação. Wander Aguilera Almeida explica que, quando o financiamento está atrelado a grãos, cada contrato assinado na entressafra passa a influenciar a liberdade de venda no momento da colheita.
Crédito, produção e comercialização passaram a formar uma mesma equação. Em um cenário de taxas de juros elevadas e volatilidade, a qualidade dessa equação adquire a mesma importância que a produtividade obtida no campo.