Quando alguém fala em gordura corporal, é comum imaginar que todo o tecido adiposo exerce a mesma função e oferece os mesmos riscos. A ciência, entretanto, revela um cenário muito mais complexo. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e especialista em comportamento alimentar, destaca que diferentes tipos de gordura desempenham papéis distintos no organismo, influenciando desde o metabolismo até o risco de desenvolver doenças cardiovasculares e metabólicas.
Essa compreensão mudou significativamente a forma como profissionais da saúde avaliam a composição corporal. Na contemporaneidade, sabe-se que a quantidade de gordura é apenas uma parte da análise. A localização desse tecido e seu comportamento metabólico podem fornecer informações muito mais relevantes sobre o funcionamento do organismo do que o número indicado pela balança.
Toda gordura corporal representa um risco?
Durante muitos anos, a gordura foi vista apenas como uma reserva de energia. Atualmente, ela também é reconhecida como um tecido metabolicamente ativo, capaz de produzir substâncias que participam da regulação hormonal, da resposta inflamatória e do equilíbrio energético do organismo.
Sob essa perspectiva, Lucas Peralles explica que a gordura corporal exerce funções importantes para a saúde quando está presente em quantidades adequadas. O problema surge quando determinados depósitos aumentam de forma excessiva, especialmente aqueles localizados ao redor dos órgãos internos, alterando o funcionamento de diversos sistemas do corpo.
Qual é a diferença entre gordura subcutânea e gordura visceral?
A gordura subcutânea é aquela localizada logo abaixo da pele. Ela pode ser percebida ao pinçar determinadas regiões do corpo e representa a maior parte do tecido adiposo em muitas pessoas. Embora também mereça atenção quando em excesso, costuma apresentar um comportamento metabólico menos agressivo.
Em contraste, a gordura visceral se acumula na cavidade abdominal, envolvendo órgãos como fígado, intestino e pâncreas. Esse tecido apresenta intensa atividade metabólica e está associado a maior produção de substâncias inflamatórias, aumento da resistência à insulina e maior risco para doenças como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares. Conforme observa Lucas Peralles, duas pessoas com peso semelhante podem apresentar perfis metabólicos completamente diferentes justamente pela distribuição dessa gordura.
Existem outros tipos de gordura no organismo?
Há um detalhe que costuma surpreender muita gente: nem toda gordura serve apenas para armazenar energia. A chamada gordura marrom possui uma função bastante diferente. Sua principal característica é produzir calor para ajudar na manutenção da temperatura corporal, utilizando energia nesse processo.

Mais recentemente, pesquisadores também passaram a estudar a gordura bege, considerada uma forma intermediária entre a gordura branca e a marrom. Embora ainda existam muitos aspectos sendo investigados, estudos sugerem que determinados estímulos, como prática regular de atividade física e exposição controlada ao frio, podem favorecer algumas adaptações desse tecido. Tal como elucida Lucas Peralles, essas descobertas mostram que o tecido adiposo é muito mais dinâmico do que se imaginava há algumas décadas.
O peso na balança conta toda a história?
Muitas pessoas utilizam exclusivamente o peso corporal para acompanhar a evolução da própria saúde. No entanto, esse indicador não diferencia gordura, músculos, água ou massa óssea. Como consequência, indivíduos com o mesmo peso podem apresentar condições metabólicas bastante distintas.
Esse cenário reforça a importância da avaliação da composição corporal. Na experiência clínica da Clínica Peralles, compreender como os diferentes tecidos estão distribuídos permite estabelecer estratégias mais adequadas para cada pessoa. Em muitos casos, reduzir gordura visceral e preservar ou aumentar a massa muscular representa um objetivo mais relevante para a saúde do que simplesmente diminuir alguns quilos na balança.
Compreender a gordura corporal é compreender melhor o próprio organismo
Os avanços da ciência mostram que o tecido adiposo está longe de ser apenas um depósito de energia. Sua localização, suas características biológicas e sua interação com outros órgãos exercem influência direta sobre o metabolismo, o equilíbrio hormonal e o risco de diversas doenças crônicas.
Por esse motivo, falar em saúde vai muito além de medir peso ou calcular o índice de massa corporal. Conforme ressalta Lucas Peralles, compreender a composição corporal permite enxergar o organismo de maneira mais completa, favorecendo decisões que contribuam para uma melhor qualidade de vida e para a construção de hábitos capazes de produzir resultados consistentes ao longo do tempo.